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Os engenheiros que viraram Uber

Durante recente viagem ao Rio de Janeiro, tive a oportunidade de utilizar por cinco vezes os serviços da Uber. Por curiosidade, sempre perguntava para o motorista o que fazia antes. Dois casos me chamaram a atenção: dois engenheiros civis, um desempregado e outro que se viu obrigado a fechar sua empresa de engenharia, ambos indiretamente afetados pelos desdobramentos da Lava Jato.

De volta a Belo Horizonte, descobri que o melhor colocado no processo de bolsa de estudo para nosso curso de mestrado em Engenharia e Gestão de Processos e Sistemas também é um engenheiro civil desempregado e motorista do Uber.

Segundo o Ministério do Trabalho, de janeiro de 2015 a agosto de 2016, tivemos, no Brasil, 53.953 engenheiros admitidos e 83.953 demitidos, com um saldo negativo de 29.794 desempregados no período.

No Brasil, há seis engenheiros para cada mil trabalhadores, enquanto nos Estados Unidos e Japão este número gira em torno de 25 por mil, e, na Alemanha, 39 por mil. O Brasil não tem engenheiros sobrando, não podemos nos dar ao luxo de ter engenheiros dirigindo Uber ou fazendo outras atividades fora da área.

Indaguei ao nosso aluno do Mestrado o que o havia levado ao Uber? “É bom para aprender a se relacionar e se comunicar com as pessoas, entender suas necessidades, desenvolver a empatia”, disse-me. Ele também queria manter-se produtivo à espera de uma oportunidade.

Mas nem todos são assim e muitos vão se perder no meio do caminho. Isso me fez refletir sobre que país é este, no qual parte de nossa elite universitária está sendo obrigada a sobreviver com oportunidades de ocasião? Onde estão nossas entidades de classes diante desse tipo de problema?

Engenheiro formado, estou longe dos cálculos e projetos porque, há 30 anos, empreendi no ramo educacional, com algum sucesso. Aprendi na prática, vencendo dificuldades e desafios. Mas lembro-me ainda que entre pessoas e entidades que me ajudaram nessa caminhada estava a Sociedade Mineira de Engenheiros (SME).

A engenharia, hoje, precisa se levantar. Governos têm seu papel nessa tarefa, mas é a própria classe de engenheiros que tem de lutar pelo seu reconhecimento.

Ronaldo Gusmão –  Engenheiro, presidente do Ietec e ex vice-presidente da SME