 |
|
|
| CANTEIROS DE OBRAS EM EXTINÇÃO |
Sistema industrial chega timidamente ao Brasil, depois de fazer sucesso em outros países. Com a técnica, os cômodos pré-fabricados são apenas encaixados pelos operários, reduzindo o prazo da construção e acabando com o desperdício.
Os canteiros de obras com betoneiras, cimento, pedaços de madeira e telas, nos moldes atuais, podem desaparecer, caso se confirme no Brasil uma tendência que ganha força em todo o mundo. Trata-se da adoção do sistema industrial de construção civil, que está chegando ao país com quase um século de atraso. Pelo menos é nessa tecla que bate o engenheiro Roberto de Araújo Coelho, mestre de engenharia de estruturas e diretor da Racional Sistemas Construtivos. Ele chama a atenção para a presença de empresas estrangeiras no país, lembrando que o Empire State, em Manhattan (Nova York) foi construído assim, há 72 anos, com 113 andares. Em São Paulo e em algumas regiões do sul de Minas, esse sistema já está sendo implantado.
Sem a preocupação de bater laje, enfileirar tijolos, com idas e vindas de baldes de água para misturas a argamasssa, o sistema industrial de construção funciona de forma parecida a uma indústria automobilística. Um carro é feito a partir da montagem de várias partes que são produzidas nas indústrias de autopeças. Casas, apartamentos, lojas, shoppings e tudo o mais relacionado à construção civil, segundo Roberto Coelho, podem ser edificados assim. Em vários países do chamando "primeiro mundo", como o Japão, Inglaterra e Estados Unidos, os contêineres chegam com os cômodos completos - banheiros, cozinhas, quartos e salas - que são apenas encaixados, reduzindo o prazo da construção e colocando um ponto final no desperdício.
O canteiro de obras se universaliza, porque o engenheiro passa a ser muito mais um gestor do que um executor. Ele se desloca até os fornecedores para acompanhar a produção e, no canteiro, se encarrega de gerenciar o projeto, Esse sistema não significa a padronização de fachadas e interiores de prédios e edifícios. Ao contrário, arquitetos e projetistas terão maiores possibilidades, com a diferença de que as encomendas serão produzidas pelos fornecedores. "As peças são entregues prontas, de acordo com o projeto", afirma Roberto Coelho.
No Brasil, segundo o engenheiro, um dos fatores que ainda dificulta essa modernização é o custo da mão-de- obra, relativamente barata quando comparada à de outros países, embora já existam algumas peças pré-fabricadas. Por isso, praticamente tudo é feito no canteiro de obras. Mas o ideal, assinala Roberto Coelho, é que pedreiros, serventes, carpinteiros e eletricistas se tornem, de fato, empregados da indústria da construção civil, trabalhando na linha de produção em fábricas ou como proprietários de unidades fabris. "Não haverá desemprego. Ao contrário. Os operários terão uma melhor qualificação, o que, depois de algum tempo, acabará por reduzir custos", afirma.
A maior racionalização dos custos e a redução do prazo de construção, em média seis meses no Sistema industrial, contra os 18 meses médios do atual sistema de construção, permite também uma redução de 70% dos problemas geralmente detectados nas construções, garante o engenheiro. Num primeiro momento, comparativamente ao que existe hoje, ele reconhece que o sistema de construção industrial pode sair até 15% mais caro. A longo prazo, porém, todo o desperdício de materiais, incluindo as quebras, perdas e defeitos, que representam aproximadamente 30% do custo de uma obra, acabam sendo compensados.
"Essa é uma realidade e as construtoras estrangeiras que trabalham assim já estão aportando no País. Quem não se modernizar, pode ser alijado do mercado", avisa. Mas para Roberto Coelho, o mais difícil é convencer o empresariado da importância dessa mudança. "Eles precisam estar cientes de que os custos relacionados com o aumento de passagens também encarecem a mão-de-obra, incidindo sobre o valor do vale-transporte. Além disso, os custos podem subir cada vez que o governo acenar com reajuste do salário", completa. Assim, ele defende a quebra desse paradigma. A gestão do trabalho dentro desse novo cenário será tema de um curso a partir de 19 de março, ministrado por ele no letec, em Belo Horizonte.
----------------------------------
* Jornal Estado de Minas, 27 de Fevereiro de 2003.
|
| | |
| |