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Por que ser inovador?

Jornal Estado de Minas - Carolina Cotta - 15/01/2012

Empresas buscam cada vez mais profissionais que insiram o conceito em suas práticas no dia a dia, gerando diferenciais de competitividade


Sustentabilidade. Governança. Inovação. Os três conceitos aparecem em qualquer conversa em que o tema é a competitividade e longevidade dos negócios. Nada mais natural, então, que não só as empresas mas também seus funcionários estejam alinhados a essas três práticas, em especial a últimas delas. Inovar é tarefa de cada profissional. Mas será que estamos todos preparados para isso? Mais: será que sabemos exatamente o que é inovação e por que precisamos ser inovadores?
“Inovação é produto no mercado, é resultado”, define José Henrique Diniz, coordenador de Inovação e Criatividade do Ietec. Segundo o especialista, se você tem uma grande ideia e não faz nada com ela, não passou de ideia. Se a transforma em um simples produto, não passou de invenção. Agora, se esse produto no mercado é um sucesso, aí sim é uma inovação. Mas esse resultado não precisa ser necessariamente econômico. A contribuição da inovação também pode ser de ordem financeira, social ou ambiental. 
“Também não é preciso ineditismo para inovar. A inovação tem que estar no comportamento das pessoas, em seu ambiente de trabalho, no dia a dia da organização”, defende Fabian Salum, professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral e membro do Núcleo Bradesco de Inovação. De acordo com o especialista, um profissional é inovador sendo mais crítico e inventivo em suas atividades. Se não for possível inventar, pode inovar questionando processos e usando o bom senso para otimizá-los.

BENEFÍCIOS
Responsável pela área de tecnologia da informação e comunicação da Teksid do Brasil/México, Wellington Eustáquio Coelho, de 51 anos, viu na inovação uma forma de se diferenciar. Para adquirir conhecimento das ferramentas e instrumentos de gestão da inovação, ele buscou uma especialização e hoje contribui para o desenvolvimento da cultura da inovação na sua área dentro da empresa, participando de forma efetiva de projetos que podem gerar diferenciais de competitividade.
“A especialização em gestão da inovação foi importante para compreender como devem ser preparados e conduzidos os projetos de inovação. Essa formação adicional está diretamente relacionada com o diferencial que o profissional passa a ter. A troca de experiências, informações e o benchmarking são aproveitados de maneira bastante positiva dentro das organizações. É uma relação em que todos são beneficiados”, defende.
À frente de uma área baseada em tecnologia, Wellington sabe que o profissional de TI precisa surfar alto na onda da inovação. Para ele, um possível caminho é abordar a gestão da inovação com foco nos processos internos, utilizando de todos os conceitos, técnicas e metodologias disponíveis na gestão de ideias, recursos, marketing, estratégia, processos e de projetos. “É exatamente o que estamos propondo e iniciando na Teksid do Brasil.”

Cultura da inovação
O Brasil ainda engatinha nesse processo, muito por conta da falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento. A boa notícia é que os profissionais começam a correr atrás

Imprescindível para o desenvolvimento, a inovação é algo recente nas organizações brasileiras. O resultado desse atraso – que o país está tentando reverter – é o despreparo dos profissionais. “É preciso dominar as técnicas e mecanismos de inovação. É algo que não vai ocorrer num estalo. Não adianta implantar um processo de inovação por decreto. É preciso que a empresa tenha uma cultura da inovação”, alerta José Henrique Diniz, coordenador de Inovação e Criatividade do Ietec.
Das 149 empresas brasileiras que mais contribuem para o Produto Interno Bruto (PIB) nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, nem 40% adotam práticas sistemáticas de inovação. A pesquisa da Fundação Dom Cabral (FDC), concluída em 2011 depois de ouvir 210 executivos brasileiros – presidentes e diretores –, revela em que pé está a inovação por aqui. “É pouco”, afirma o responsável pelo estudo, Fabian Salum, professor e pesquisador da FDC e membro do Núcleo Bradesco de Inovação.
O especialista se deparou com situações inimagináveis para um país que quer se tornar uma das três maiores economias do planeta. “Por incrível que pareça, algumas dessas grandes empresas sequer têm convênio com universidades e desconhecem leis de incentivo para a inovação. Há uma distância muito grande entre o que se tem a oferecer e o que se aplica.”
Nosso estado segue essa lógica. O estudo com 19 grandes empresas associadas ao Centro de Referência da Inovação de Minas Gerais, da FDC, reforçou o investimento tardio no que de fato pode garantir competitividade às empresas. Mais grave é pensar que se trata das principais empresas do estado – 68,4% delas do segmento automobilístico, mineração/siderurgia e metalurgia, e 31,6% da indústria de bens de consumo, eletroeletrônicos, energia, construção, produção agropecuária e telecomunicações. 
Fato é que 52,6% delas teve seu setor de pesquisa, desenvolvimento e inovação criado há menos de cinco anos. As demais 47,3% já buscam vantagens competitivas há mais tempo, transformando dinheiro em conhecimento e aplicando-o em inovações. Mas é tudo muito recente se considerarmos o tempo que tais inovações levam para se materializar em produtos, processos e serviços que gerem resultados. A notícia boa é que estamos correrendo atrás.

INVESTIMENTO
As empresas precisam buscar uma cultura da inovação, mas essa também deve ser uma busca de cada profissional. A engenheira de automação industrial da Gerdau Açominas Mariana Helena Queiroz Santos, de 31 anos, viu suas possibilidades profissionais se ampliarem depois de uma especialização em gestão da inovação. Envolvida com projetos de tecnologia de automação industrial, em que precisa otimizar processos, ela é a típica profissional da qual se espera boas ideias.
“A gestão da inovação mudou minha visão sobre o trabalho e passou a ser meu foco profissional. Hoje, a inovação está no meu dia a dia, embora a maioria das pessoas ainda pense que inovar é criar coisas de outro mundo. A inovação, ao contrário, é algo que podemos gerenciar, estimular e utilizar como recurso estratégico. Criatividade é o que não falta. O que precisamos é de ferramentas para tornar isso executável.”
E é bom não confundir criatividade com inovação. Segundo José Henrique, toda inovação nasce de uma ideia, tem na base a criatividade, mas essa necessariamente não leva a resultados. E inovação é o somatório de criatividade, atitude e resultado. Publicitários, por exemplo, são criativos e não necessariamente inovadores, o que pode ocorrer quando inauguram formatos e processos. De qualquer forma, é preciso estimular a produção de novas ideias.
André Ferreira, diretor de criação da Percepttiva Comunicação, acredita que isso pode ser conquistado com a busca por conhecimento. “Para ter boas ideias é preciso beber de muitas fontes. Na minha área, por exemplo, costumo buscar referências na fotografia, literatura, cinema, teatro. E hoje não só a área de criação de uma agência precisa mostrar criatividade. Outros departamentos, como o atendimento e o planejamento, também precisam propor o que ainda não foi feito. Inovar é fazer algo na frente.”


TRÊS PERGUNTAS PARA...THIRZA SIFUENTES - COACH
 
O que uma empresa espera do seu profissional? 
Espera que ele tenha uma boa visão estratégica e que consiga considerar o todo enquanto está atento ao específico. Espera proatividade, que permite a inovação ao mesmo tempo que mantém a essência (missão e valores) da instituição. Espera também clareza na comunicação, assertividade e, ao mesmo tempo, uma "irreverência gentil", isso é, a capacidade de romper a regra e sair do óbvio de forma respeitosa e coerente com os princípios da organização. E, por fim, a capacidade de cooperar e trabalhar em equipe.

Por que o profissional inovador é tão importante no mercado atual?
Porque as mudanças estão cada vez mais rápidas e automatizadas. É importante e estratégico ter profissionais antenados no mercado, que sejam capazes de ver além, que tenham sensibilidade para perceber o curso dessas mudanças e das novas demandas para sair na frente e melhor se posicionar.

Há como trabalhar esses aspectos, preparar-se para ser inovador?
Sempre acredito que somos capazes de aprender, seja qual for a habilidade requerida. No caso de tornar-se inovador, o necessário é iniciar um processo de autoconhecimento. O profissional precisa saber quais são seus pontos fortes e quais são os aspectos que deseja desenvolver. Assim, poderá apoiar-se em suas competências para promover o desenvolvimento de novos saberes. Isso, por si só, já é inovador.


Desafio é aumentar a competitividade
Até 2014, o governo vai quase dobrar o que as empresas gastam com pesquisa e desenvolvimento (P&D), saltando dos atuais 0,59% para 0,90% do Produto Interno Bruto (PIB). A proposta faz parte do Plano Brasil Maior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, para aumentar a competitividade da indústria nacional, incentivando a inovação tecnológica e agregando valor. Afinal, o país precisa conquistar liderança tecnológica em setores estratégicos, internacionalizar empresas e reter as estrangeiras que aqui estão para que essas também invistam mais em P&D. O cenário vem melhorando nos últimos anos com a descentralização do investimento nessa área. Em uma nova composição, Ásia e América Latina estão ganhando mais espaço. De acordo com o National Science Board, nas duas últimas décadas o Brasil já é um dos 15 maiores investidores de P&D, resultado de um processo de diminuição da concentração de recursos aplicados pelos países desenvolvidos e, por sua vez, um aumento significativo nos países emergentes. Para Fábio Salum, tal movimento deve-se à inclusão de pesquisa, desenvolvimento e inovação nas políticas dos países que precisam incentivar o conhecimento. Outro motivo seria o reconhecimento das empresas globais com foco em inovação, que procuravam reduzir custos e acessar novos processos de pesquisa, de que as economias em desenvolvimento são boas oportunidades de investimento.

Como se preparar
Se as empresas buscam pessoas capazes de inovar e o brasileiro ainda não está preparado, o que fazer? Para José Henrique, é possível se preparar. 
Segundo o especialista, o profissional capacitado para fazer a gestão da inovação tem que, antes de tudo, entender o que é inovação e ter vontade de inovar. Mas também precisa se capacitar, conhecendo ferramentas e técnicas que lhe permitirão saber onde, como e por que inovar. Esse profissional precisa de um ambiente e de uma liderança que estimule e direcione sua capacidade criativa. Reconhecimento é essencial.
Do ponto de vista de quem busca candidatos com esse perfil, Wellington Eustáquio Coelho, da Teksid, acredita que esse profissional tem que ter competências para gerenciar projetos que realmente agreguem valor e que estejam alinhados com o plano estratégico da organização. “Alguém capaz de inovar tem que ter conhecimento profundo da demandas e estratégicas do negócio em que atua, seja na condução dos processos, nas relações com os demais profissionais ou no desenvolvimento de suas próprias competências, entregando resultados de alto valor. Tem que ter foco no planejamento com visão estratégica, capacidade de reduzir barreiras e construir alianças, tomar iniciativas e utilizar a criatividade colaborativa.”

 


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